Se você perguntar a qualquer argentino qual é a uva símbolo do país, a resposta é uma só: Malbec. 

Mas tem uma segunda uva que cresceu em silêncio. Durante décadas, foi a "irmã feia", usada só para dar cor a vinhos baratos. E hoje, está vivendo um renascimento incrível.

Ela se chama Bonarda.

 O plot twist que ninguém viu chegar

Por muitos anos, os produtores argentinos acharam que a Bonarda era uma uva italiana trazida pelos imigrantes. O nome era igual ao de uma variedade do norte da Itália, então tudo fazia sentido.

Até que a ciência chegou.

Os testes de DNA revelaram a verdade: a Bonarda argentina não tem nada a ver com a italiana. Ela é, na verdade, uma uva francesa chamada Corbeau Noir, originária da região de Saboia.

Ela chegou à Argentina no fim do século XIX e encontrou seu verdadeiro lar em Mendoza.

Hoje, é conhecida oficialmente como Bonarda Argentina, com identidade própria.

Onde ela se esconde?

A casa dela é o Leste de Mendoza. Lá, nos departamentos de San Martín, Rivadavia e Santa Rosa, está 84% de toda a Bonarda do país.

Por que ali? Porque é uma região quente, com cerca de 650 metros de altitude. Isso dá à uva um perfil suculento, frutado e cheio de personalidade.

Mas os enólogos mais curiosos estão levando a Bonarda para lugares mais altos, como o Valle de Uco. Lá, com noites mais frias, a uva fica mais elegante e complexa.

Hoje, a Argentina tem cerca de 5.800 hectares plantados com Bonarda. Não é Malbec (que tem 46 mil hectares), mas é a segunda tinta mais importante do país.

Qual é o sabor da Bonarda?

· Visual: um vermelho rubi intenso, com reflexos violetas. Parece que está vivo.

· Aroma: uma explosão de frutas vermelhas (framboesa, cereja) e frutas escuras (amora, ameixa). Às vezes, um toque de chocolate ou especiarias, se passou por madeira.

· Na boca: e aqui está o segredo. A Bonarda tem taninos macios, acidez equilibrada e corpo médio. Ela é perigosamente fácil de beber. Não é um vinho que te bate igual um Malbec potente. 

Traduzindo: se o Malbec é o leão da selva, a Bonarda é o leopardo: mais ágil, mais amigável, e silenciosamente linda.

Por que ela ficou escondida por tanto tempo?

A Bonarda sempre foi uma uva de alta produtividade. Se deixada crescer sem controle, produzia mais de 20 toneladas por hectare. Isso fazia vinhos fracos, sem concentração, bons só para dar cor a vinhos baratos.

Por décadas, ela foi a "uva de enchimento".

Mas nos anos 2000, alguns enógenos curiosos começaram a perguntar: "E se a gente podar menos? E se levar para zonas mais frias? E se tratar ela com o mesmo carinho que o Malbec?"

Eles fizeram o teste. E o resultado foi um vinho que não devia nada aos grandes tintos argentinos.

Hoje, vinícolas como El Enemigo (do enólogo Alejandro Vigil) e Zuccardi fazem Bonardas de alta qualidade, que competem com os melhores Malbecs do mercado.

Com o que comer?

A Bonarda não é uma uva pretensiosa. Ela não exige um prato chique nem um jantar de gala. A Bonarda é o vinho do dia a dia.

· Massas: qualquer molho vermelho, de um simples sugo até um ragu.

· Pizzas: sim, e com bastante queijo.

· Empanadas: de carne, frango, até de milho.

· Choripán: o clássico do fim de semana dos Argentinos. 

· Carnes na grelha: não tão potentes quanto um contrafilé, mas uma fraldinha ou uma costela vão super bem.

O segredo? Sua acidez equilibrada e taninos macios fazem com que ela não brigue com a comida, mas a acompanhe.

Que garrafa comprar?

Se você quer começar a conhecer a Bonarda, aqui vão três sugestões para diferentes bolsos:

Bonarda "El Enemigo" El Enemigo Alta gama, com madeira

Bonarda "Finca La Linda" Luigi Bosca Clássico, equilibrado

Bonarda "Casa de Campo" (várias) Jovem, frutado 

 

O Malbec sempre será o rei. Foi ele que nos colocou no mapa, que abriu as portas do mundo. Mas a Bonarda... a Bonarda é o irmão que sempre esteve ali, esperando a hora de brilhar... e essa hora chegou.

 

Saúde!🍷